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MariaDB 27 de outubro de 2026 13 min de leitura

Até onde o MariaDB aguenta? As perguntas que todo CTO faz (e as respostas sem enrolação)

Capacidade, tamanho de base e tabela, número de linhas, Community vs Enterprise, suporte em português no Brasil, segurança para fintechs e healthtechs e alta disponibilidade nativa no MariaDB.

Até onde o MariaDB aguenta? As perguntas que todo CTO faz (e as respostas sem enrolação)

Quando sento com um CTO, as perguntas quase nunca são sobre sintaxe. São sobre risco: "isso aguenta?", "quem me socorre às 3 da manhã?", "passa na auditoria?". Juntei aqui as perguntas que mais ouço, com respostas diretas. Onde a resposta é "depende", explico do quê.

Executivo observando painel de saúde de cluster de banco de dados com cofre de segurança

1. Qual o tamanho máximo de uma base?

O MariaDB não impõe limite prático ao tamanho da base. Uma base é um conjunto de tabelas, e o limite real é o seu armazenamento e a sua estratégia de backup. Bases de vários terabytes em produção são comuns.

2. E de uma tabela?

No InnoDB, o limite do tablespace depende do tamanho de página: com a página padrão de 16 KB, uma tabela (com innodb_file_per_table) pode chegar a 64 TB. Antes disso, quase sempre o limite que aparece é o do sistema de arquivos ou o tempo de backup e restore.

3. Quantas linhas ele aguenta sem sofrer?

Bilhões de linhas numa tabela InnoDB são perfeitamente viáveis. A pergunta certa não é "quantas linhas", e sim:

  • Os índices quentes cabem na memória? Se o working set cabe no buffer pool, o banco voa.
  • As consultas usam índice? Uma busca por chave primária em 10 bilhões de linhas percorre poucos níveis de árvore B+. Um full scan em 10 milhões já dói.
  • Precisa apagar dados antigos? Use particionamento: DROP PARTITION é instantâneo, DELETE de bilhões de linhas não é.
CREATE TABLE eventos (
  id BIGINT NOT NULL, criado DATE NOT NULL, payload JSON,
  PRIMARY KEY (id, criado)
) PARTITION BY RANGE COLUMNS (criado) (
  PARTITION p2026_09 VALUES LESS THAN ('2026-10-01'),
  PARTITION p2026_10 VALUES LESS THAN ('2026-11-01'),
  PARTITION pmax     VALUES LESS THAN (MAXVALUE)
);

Passou do que um servidor aguenta? Há caminhos sem trocar de banco: réplicas de leitura, Spider para sharding e ColumnStore para análise. Veja todos os motores do MariaDB.

4. E conexões e concorrência?

Milhares de conexões simultâneas são possíveis com o thread pool, que no MariaDB é gratuito, inclusive na versão Community.

5. Quem é a MariaDB e quem está por trás?

São duas organizações com papéis diferentes:

  • MariaDB Foundation: sem fins lucrativos, garante que o MariaDB Server continue aberto e independente. Expliquei em o que é a MariaDB Foundation.
  • MariaDB (empresa): maior contribuidora do código, vende a edição Enterprise, suporte com SLA, consultoria e ferramentas como o MaxScale.

6. Community ou Enterprise?

 CommunityEnterprise
Custo de licençaGratuito (GPL)Assinatura
Ciclo de versõesRolling releases e LTSVersões focadas em estabilidade, com correções levadas para trás por mais tempo
SuporteComunidade e parceirosSuporte oficial com SLA, 24x7
Ferramentas extrasBásico robustoMaxScale, auditoria e recursos de segurança e backup ampliados

Regra prática: Community atende muito bem quando você tem time ou parceiro que domina o banco. Enterprise faz sentido quando o contrato com o cliente final exige SLA do fabricante. Os detalhes de cada edição mudam com o tempo, então confirme a lista atual com a MariaDB antes de fechar.

7. Tem suporte no Brasil, em português?

Sim. Para operação, consultoria e sustentação em português, a HTI Tecnologia é parceira especializada em bancos de dados. E eu, como MariaDB Ambassador no Brasil, faço a ponte entre o problema e quem resolve, seja a comunidade, a Foundation ou a própria MariaDB. Não precisa abrir chamado em inglês e esperar o fuso.

8. Atende fintech, insurtech e healthtech?

O MariaDB traz os blocos que auditorias de LGPD, normas do Banco Central, SUSEP, PCI DSS ou dados de saúde costumam pedir:

  • Criptografia em trânsito: TLS nas conexões e na replicação.
  • Criptografia em repouso: tabelas, tablespaces, logs e arquivos temporários, com plugins de gestão de chave (inclusive integração com cofre de chaves externo).
  • Auditoria: plugin de auditoria que registra conexões, consultas e alterações.
  • Controle de acesso: roles, privilégios granulares, validação de senha forte, expiração de senha, autenticação ed25519, PAM e GSSAPI/Kerberos.
  • Rastreabilidade de dados: tabelas temporais mostram como um registro estava em qualquer momento, ótimo para auditoria.
-- exigir TLS para um usuário
ALTER USER 'app'@'%' REQUIRE SSL;

-- criptografar uma tabela (com plugin de chaves configurado)
CREATE TABLE prontuarios (...) ENCRYPTED=YES;

-- auditoria
INSTALL SONAME 'server_audit';
SET GLOBAL server_audit_logging = ON;

Importante: nenhum banco "é compatível com a LGPD" sozinho. Ele dá as ferramentas; processos, gestão de chaves e controles da empresa completam a conta.

9. Que disponibilidade eu consigo sem terceiros?

  • Replicação assíncrona e semi-síncrona: nativas, com GTID, para réplicas de leitura e failover.
  • Galera Cluster: multi-master síncrono, vem com o servidor. Com três nós, a queda de um não perde transação confirmada.
  • MaxScale: proxy da própria MariaDB para failover automático e divisão leitura/escrita.
  • Backup a quente: mariadb-backup faz cópias sem parar o banco, com backup incremental.
        App ──► MaxScale (ou balanceador)
                 │        │        │
               Nó 1 ◄──► Nó 2 ◄──► Nó 3     Galera: síncrono, multi-master

O número final de "noves" depende da arquitetura, da infraestrutura e da operação, não só do banco. Mas o ponto é: dá para chegar em alta disponibilidade séria só com peças do próprio ecossistema MariaDB.

10. Vou ficar preso?

Não. O código é GPL, o protocolo é compatível com o do MySQL e os drivers são abertos. Essa é, para mim, a melhor proteção de longo prazo que um CTO pode ter.

11. E IA?

Vetores e índice HNSW nativos, no mesmo banco das suas transações. Veja MariaDB e IA e um RAG na prática.

12. Por quanto tempo cada versão tem suporte?

As versões LTS da Community têm vários anos de manutenção; as rolling releases, ciclos curtos. Planeje upgrades. Expliquei em MariaDB 10.6 chegou ao fim de vida.

Resumo para levar para a reunião

  • Escala: terabytes e bilhões de linhas são rotina com bom design.
  • Segurança: TLS, criptografia em repouso, auditoria e controle de acesso granular.
  • Disponibilidade: replicação, Galera, MaxScale e backup a quente, tudo do próprio ecossistema.
  • Suporte: fabricante, Foundation, parceiro local (HTI) e um Ambassador no Brasil.

Pensando em migrar? Veja do MySQL ou do PostgreSQL. Tudo sobre MariaDB em /mariadb.


Sobre o autor: Alexandre Almeida é MariaDB Ambassador no Brasil, autor do livro Aprendendo MySQL e trabalha com bancos de dados há mais de 30 anos.

Fontes: MariaDB Knowledge Base: InnoDB Limitations, Partitioning, Data-at-Rest Encryption, Secure Connections, MariaDB Audit Plugin, Galera Cluster, mariadb-backup e Thread Pool (mariadb.com/kb). MariaDB Foundation: About. Imagem: ilustração gerada por IA; logo MariaDB de propriedade da MariaDB.